Como um herdeiro imobiliário mineiro construiu um banco de R$ 87 bilhões em cinco anos — e abriu o maior rombo da história do sistema financeiro brasileiro.
Vorcaro entra no Banco Máxima como sócio minoritário em 2016. Entre 2017 e 2019, assume o controle integral — em sociedade com os irmãos Conte — após o Banco Central impor restrições ao então dono Saul Sabbá. Em 2021, a instituição é rebatizada Banco Master e passa a operar como banco múltiplo, com foco declarado em crédito consignado nas regiões Norte e Nordeste.
O motor real, contudo, era a captação via CDBs com taxas agressivas. O argumento comercial cabia em uma frase: "está tudo coberto pelo FGC, até R$ 250 mil". A retórica funcionou. Em cinco anos, os ativos saltaram de R$ 3,7 bi para R$ 87 bi.
Período: 2019 → 2024 · Fonte: BC, Metrópoles, ndmais
"O plano de negócios, desde 2018, era baseado no FGC. Não havia nada de errado nisso. Era a regra do jogo."
— Daniel Vorcaro, em depoimento à PF
Em 28 de março de 2025, o BRB anunciou a compra de 58% do Banco Master por R$ 2 bilhões — adquirindo 49% das ON, 100% das PN e mantendo Vorcaro no controle. A aritmética da operação tinha um objetivo escondido: ao consolidar balanços, as transações fraudulentas entre as duas instituições desapareceriam como eliminações intragrupo.
O Banco Central percebeu. Em 3 de setembro de 2025, indeferiu a operação, citando "atuação sem diligência e prudência" e questionando a origem lícita dos recursos. Mesmo após o veto, o BRB continuou comprando ativos do Master até outubro — mais R$ 1,9 bilhão.
Investigações da PF apontam que o BRB sabia que estava adquirindo "ativos podres", o que sugere participação ativa no esquema, não vitimização. O ex-presidente Paulo Henrique Costa teria recebido R$ 146,5 milhões em imóveis ligados a Vorcaro como contrapartida.
Consórcio liderado pela Fictor Holding, com investidores não identificados dos Emirados Árabes Unidos, anuncia compra do Master prometendo aporte de R$ 3 bilhões. Vorcaro acreditava ter resolvido o problema.
Polícia Federal detém Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando embarcaria em jato particular Falcon 7X com destino a Dubai. Início da Operação Compliance Zero.
BC decreta liquidação de quatro empresas do conglomerado: Banco Master S/A, Banco Master de Investimento, Banco Letsbank e Master Corretora. O Banco Master Múltiplo entra em RAET para preservar a Will Financeira. Ativos: R$ 87 bi · Passivos: R$ 83 bi · 0,57% do SFN.
"Mais de um terço do FGC, estimado em R$ 122 bi (líquido)."
Letras financeiras não são cobertas pelo FGC. Aposentados e pensionistas são os credores finais.
Vorcaro detido embarcando para Dubai. Operação combate emissão de títulos de crédito falsos.
Endereços ligados a Vorcaro alvo de busca e apreensão; bens bloqueados. Não houve nova prisão.
Por ordem de André Mendonça (STF). Bloqueio de R$ 2,2 bi da família. Sequestro autorizado de até R$ 22 bi.
Prisão de Paulo Henrique Costa (ex-pres BRB) e Daniel Monteiro, "arquiteto jurídico". Costa receberia R$ 146,5 mi em imóveis.
Vorcaro negocia colaboração premiada com PF e PGR. Diálogos identificados pela investigação na 3ª fase indicam ordens para "ataques a adversários" e manutenção de estrutura armada de proteção.
Vorcaro aportou R$ 300 milhões na SAF do Atlético Mineiro através do Galo Forte FIP, adquirindo 20% do capital. O fundo, contudo, não é o que parece. A Operação Carbono Oculto — que investiga atuação do PCC na Faria Lima — desenhou uma cadeia "fundo sobre fundo" administrada pela Reag Trust:
O Astralo 95 está entre os fundos identificados pelo Banco Central como veículo de desvio de recursos do Master. Os beneficiários finais declarados são parentes de João Carlos Mansur, ex-dono da Reag — gestora também liquidada pelo BC. A SAF destituiu Vorcaro do Conselho de Administração em 21.11.2025.
Dono da MRV e da CNN Brasil, sócio na SAF do Atlético desde 2023. Operação está sob investigação da PF.
Investigação da PF sobre atuação do PCC em fundos da Faria Lima. Os fundos com nomes do filme "Frozen" (Olaf, Hans) administrados pela Reag conectam Vorcaro à estrutura.
O caso Master é classificado como a maior crise institucional do mercado financeiro brasileiro — supera o rombo da Lojas Americanas (R$ 40 bi, 2023), até então o maior escândalo financeiro do país. Mas a comparação contábil esconde o essencial: enquanto a Americanas era um problema corporativo, o Master é um problema regulatório.
O esquema só foi possível porque a arquitetura do FGC permite arbitragem: bancos pequenos pagam um prêmio sobre o CDI, atraem captação massiva e socializam o risco em caso de quebra. O depositante não cobra diligência da instituição porque a garantia é pública. O garantidor, por sua vez, não tem instrumentos para barrar o crescimento até que seja tarde.
A segunda lição é a captura regulatória parcial. O BRB, banco público controlado pelo Governo do Distrito Federal, operou como balcão de saída do esquema — comprou R$ 30,4 bi em ativos do Master, sendo R$ 12,2 bi sabidamente fraudulentos. A simbiose entre uma instituição estatal e uma fraude privada multibilionária só foi rompida pelo Banco Central federal, em setembro de 2025, quando a operação de incorporação foi vetada.
A terceira lição vem da opacidade dos fundos estruturados. A cadeia "fundo sobre fundo" da Reag — Olaf, Hans, Alepo, Maia, Astralo — permitiu que recursos do PCC, do Master e de outros atores se misturassem sob a mesma camada jurídica. A Lei das SAFs exigia identificação de beneficiários finais; Vorcaro mentiu por anos. Sem inteligência financeira cruzada, esse modelo segue replicável.
Por fim, há o elo finanças-futebol. As SAFs entraram no país como instrumento de profissionalização e atraíram capital legítimo (Menin/MRV) e capital cinza (Vorcaro/Reag) na mesma operação. O Atlético Mineiro precisou afastar Vorcaro do Conselho em novembro; o estrago reputacional permanece.